Em abril de 2026, a BYD surpreendeu ao superar a Volkswagen e assumir a liderança no mercado brasileiro de veículos no varejo, com 14,9 mil carros elétricos e híbridos vendidos, contra 14,8 mil da marca alemã. No mesmo mês, a montadora chinesa entrou para a “lista suja” do trabalho análogo à escravidão, após denúncias envolvendo a condição dos trabalhadores na obra da fábrica em Camaçari, na região metropolitana de Salvador.
O que é a lista suja do trabalho escravo
- Empregadores incluídos são flagrados submetendo funcionários a condições degradantes e jornadas exaustivas.
- A permanência no cadastro é automática por dois anos, dificultando acesso a crédito e aumentando o risco reputacional.
- Algumas empresas recorrem à Justiça para retirar temporariamente seus nomes até o julgamento final, estratégia adotada pela BYD, que ficou três dias no cadastro.
Uma semana após a inclusão da BYD na lista, o secretário de Inspeção do Trabalho, responsável pela elaboração do cadastro, foi exonerado. A demissão gerou críticas e suspeitas de interferência política na fiscalização contra o trabalho escravo, em um contexto que inclui outros casos polêmicos envolvendo grandes empresas.
Primeiras inspeções e descoberta dos alojamentos clandestinos
No fim de novembro de 2024, a primeira visita ao canteiro da construção da fábrica da BYD em Camaçari não encontrou provas evidentes das denúncias de maus-tratos feitas por trabalhadores. Porém, 11 dias antes, um vídeo mostrava um supervisor chinês agredindo colegas. Novas informações trazidas pela imprensa e sindicatos reforçaram a suspeita de abusos.
Em 9 de dezembro, uma força-tarefa composta por procuradores, auditores fiscais, policiais federais, defensores públicos e intérpretes de mandarim voltou ao local. Apesar da pouca presença de trabalhadores e equipamentos aparentemente abandonados, a equipe percebeu tentativas de ocultar informações. A lista oficial dos alojamentos fornecida pelas empresas estava incompleta.
Na noite seguinte, os fiscais vistoriaram dois endereços não informados. Encontraram entre 80 e 100 trabalhadores chineses alojados em “Casa Amarela” e mais 40 em um local apelidado de “Churrascaria Pantanal”. As condições eram precárias: camas sem colchão sobre tábuas, alojamentos mal conservados, cozinhas sujas, lixo acumulado, infestações de baratas e instalações elétricas improvisadas.
As inspeções seguintes, até 20 de dezembro, revelaram outros dois alojamentos secretos que abrigavam o restante dos 163 trabalhadores resgatados. O relatório da fiscalização descreve jornadas exaustivas, trabalho sete dias por semana, retenção de salários e passaportes, além das péssimas condições de higiene e segurança.
Vida difícil e vigilância constante
- Os trabalhadores, vindos de diferentes regiões da China — incluindo sete mulheres — foram atraídos por promessas de altos salários e contratos anuais.
- Na prática, recebiam valores muito inferiores ao prometido, depositados em contas chinesas de difícil acesso no Brasil.
- O acesso ao exterior era limitado devido à retenção de passaportes, mantidos trancados em escritórios das obras, e a vigilância noturna com policiais militares armados.
- A barreira linguística impedia a liberdade de circulação e o contato com o comércio local.
Condições extremas e acidentes de trabalho
O descanso dos trabalhadores só era possível em dias de chuva, já que a obra continuava ininterruptamente, com jornadas de cerca de 10 horas diárias sem registro de ponto. Faltavam banheiros adequados e espaço para o descanso.
O calor intenso da Bahia agravou a situação. Um dos resgatados teve insolação grave e precisou de atendimento hospitalar. Outro carpinteiro sofreu acidente com serra elétrica, evidenciando o impacto da fadiga e da precariedade nas condições de trabalho. Muitos assinaram contratos que não leram, já que eram analfabetos na chegada.
Trabalho braçal para estrangeiros e crítica à terceirização
A fiscalização identificou que muitos trabalhadores não tinham especialização técnica e realizaram tarefas manuais que poderiam ser feitas por mão de obra local. A presença crescente de trabalhadores chineses em obras no exterior pode estar relacionada ao ritmo acelerado e à flexibilidade da jornada, segundo especialistas em trabalho internacional.
A terceirizada Jinjiang, responsável pela obra, foi apontada como braço operacional da BYD, responsável direta pela gestão funcional dos empregados, o que liga a montadora às violações.
Consequências e desfecho na esfera administrativa
- Após a inspeção, as empresas receberam notificação para corrigir diversas irregularidades.
- O contrato dos trabalhadores resgatados foi rescindido, com pagamento das verbas e passagens para o retorno à China, decisão unânime entre os 163 resgatados.
- A BYD tentou negociar um Termo de Ajustamento de Conduta para evitar a inclusão definitiva na lista suja, mas as negociações não avançaram.
- O nome da empresa foi incluído na lista em abril, mas saiu três dias depois graças a liminar judicial.
- O episódio gerou tensões internas no Ministério do Trabalho e mudanças no comando da Secretaria de Inspeção do Trabalho.
Polêmica política e preocupações sobre a fiscalização
Ao longo do último ano, o ministro do Trabalho interveio em diversos processos envolvendo trabalho escravo, anulando autuações de grandes empresas, o que gerou críticas de auditores-fiscais. A avocação desses processos por parte do ministro, prática sem precedentes na democracia recente, é vista por especialistas como um enfraquecimento do combate ao trabalho escravo no país.
A demissão do secretário responsável pela lista e a pressão para demitirmos servidores reforçam o clima de retaliação institucional. Profissionais do ministério temem que esses episódios comprometam a fiscalização e a proteção dos direitos trabalhistas no Brasil.





