BYD assume liderança no mercado brasileiro de veículos elétricos e híbridos
Em abril, uma montadora chinesa superou a Volkswagen pela primeira vez, tornando-se a líder de vendas no varejo brasileiro no segmento de veículos elétricos e híbridos. Foram entregues 14,9 mil unidades desses modelos aos consumidores, contra 14,8 mil veículos da concorrente alemã.
Lista Suja do Trabalho análogo à Escravidão
No mesmo mês, a empresa foi incluída na chamada “lista suja” do trabalho escravo, registros destinados a empregadores que submetem trabalhadores a condições degradantes e jornadas excessivas, permanecendo nela por dois anos.
No entanto, sua permanência nessa relação durou apenas três dias. A companhia obteve uma liminar judicial para retirar seu nome enquanto o caso é analisado no Judiciário. Essa tática voltou a levantar debates, mas várias companhias recorrem aos tribunais para conquistar decisões temporárias que as excluam do cadastro, vigente desde 2004.
Estar na lista pode acarretar dificuldades para as empresas, como uma crise de imagem e restrições para obtenção de financiamentos, uma vez que algumas instituições financeiras evitam negócios com listados.
Exoneração polêmica e alegações de interferências políticas
Uma semana após a inclusão da montadora na lista, o responsável pela elaboração do cadastro no Ministério do Trabalho foi demitido. A pasta declarou tratar-se de ato administrativo de gestão, sem detalhar os motivos.
Auditores-fiscais do trabalho associam a demissão ao caso da montadora, relacionando-a a uma série de supostas interferências políticas do atual ministro do Trabalho, que teriam prejudicado a atuação técnica na repressão ao trabalho escravo. Um precedente citado nesse contexto foi a intervenção em processo relacionado a outra grande empresa do setor agroindustrial no ano anterior.
Operação em Camaçari: Resgate e fiscalização
A saga teve início em 2024, com uma fiscalização em um canteiro de obras da fábrica na região metropolitana de Salvador. A primeira vistoria, em novembro daquele ano, não encontrou irregularidades apesar de denúncias graves, como um vídeo onde um superior agredia trabalhadores.
Duas semanas depois, novas informações e denúncias via imprensa e sindicato reacenderam as suspeitas. Uma ampla força-tarefa de 41 pessoas, composta por procuradores, auditores, policiais federais e intérpretes de mandarim, voltou ao local em dezembro para uma inspeção mais detalhada.
Descoberta de alojamentos escondidos e condições degradantes
- Foram encontrados quatro alojamentos não informados oficialmente, onde dormiam cerca de 163 trabalhadores chineses.
- As acomodações ofereciam camas de madeira sem colchão, higiene precária, infestação de baratas, lixo acumulado e instalações elétricas improvisadas.
- Jornadas exaustivas, trabalho sete dias por semana, retenção de salários e passaportes foram registrados.
Essas condições refletem denúncias recentes feitas por uma organização de fiscalização do trabalho sobre outra obra da mesma terceirizada responsável na Europa.
Rotina severa dos trabalhadores chineses
- Os funcionários, vindos de várias regiões da China, tinham contratos de um ano com salários prometidos entre 12 mil e 15 mil yuans (cerca de R$ 8,7 mil a R$ 10,7 mil), mas recebiam apenas entre 4 mil e 6 mil yuans.
- Grande parte do dinheiro era depositado em conta bancária na China, inacessível devido a bloqueios de internet.
- Eles raramente saíam dos alojamentos, que eram monitorados por policiais militares armados.
- Passaportes foram encontrados trancados em um escritório cujo endereço não foi informado às autoridades.
Condições de trabalho e saúde
- Descanso praticamente inexistente, com folgas apenas em dias de chuva, sem remuneração.
- Jornadas diárias de aproximadamente dez horas, iniciando cedinho e terminando no fim da tarde, sem controle de ponto.
- Filas para uso dos banheiros comuns e químicos, estes últimos sem papel higiênico e raramente limpos.
- Exposição ao forte sol baiano causou problemas de saúde, como insolação.
- Acidentes de trabalho foram relatados, como cortes graves por fadiga e calor excessivo.
Arrependimento e desafios para retorno
Um dos trabalhadores, analfabeto e recrutado em sua aldeia, expressou arrependimento pela vinda ao país, desejando retornar imediatamente, algo dificultado pela necessidade de pagar passagem e a retenção de caução financeira.
A fiscalização também observou que muitos dos trabalhadores eram da construção civil, sem especialização técnica para os serviços especializados que haviam sido alegados para justificar a importação da mão de obra chinesa do outro lado do mundo. Trabalhadores brasileiros conviviam no mesmo canteiro, executando tarefas semelhantes.
Responsabilidade e vínculo empregatício
Embora os funcionários fossem formalmente contratados por empresas terceirizadas estrangeiras, a fiscalização concluiu que estas atuavam como extensões operacionais da montadora, estando subordinadas diretamente a ela. Isso configura uma relação de subordinação funcional e econômica típica de vínculo empregatício, pelo que a empresa principal não pode se eximir da responsabilidade.
Após a inspeção, as empresas foram notificadas por trabalho em condições análogas à escravidão e instruídas a corrigir as irregularidades. Os contratos foram rescindidos, com pagamento de verbas rescisórias, e as passagens de retorno para a China foram custeadas para todos os trabalhadores, que optaram por retornar.
Processo administrativo e repercussão política
Após a operação na Bahia, o processo seguiu para análise no Ministério do Trabalho, onde a empresa pôde apresentar defesa e recorrer em instâncias internas. A Secretaria responsável confirmou a validade das autuações, resultando na inclusão da montadora na lista suja em abril de 2026.
A empresa também negociava um acordo para firmar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), que poderia retirá-la do cadastro, mas a negociação não avançou. O nome permaneceu na lista até que uma liminar garantiu sua exclusão três dias depois da divulgação.
Conflitos internos e medidas controversas no ministério
Fontes indicam que o ministro do Trabalho teria pedido a suspensão da divulgação da lista, no momento em que a empresa buscava liminar judicial. A recusa do secretário responsável pela área gerou sua demissão, interpretada por auditores como retaliação institucional.
O ministro tem histórico de assumir diretamente a análise de processos envolvendo trabalho escravo, anulando várias autuações recentes relacionadas a grandes empresas. Essa prática, chamada avocação, não era comum em governos democráticos e tem sido criticada por enfraquecer o combate ao trabalho análogo à escravidão.
Auditores em cargos de coordenação deixaram funções por discordância com essa interferência política, que segundo eles, prejudica a fiscalização e proteção dos direitos dos trabalhadores no país.





