Após um período marcado por perda de dinamismo, fechamento de fábricas e a saída da Ford, o Polo Industrial de Camaçari está retomando seu protagonismo como peça-chave na estratégia de desenvolvimento da Bahia. Essa renovação se apoia em investimentos significativos, como a instalação da BYD, a reativação da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (Fafen-BA) e a inauguração da nova unidade da Unipar.
Uma nova fase para o polo
Apesar dos desafios enfrentados pelo setor petroquímico brasileiro, a diversificação das atividades e os investimentos focados em sustentabilidade têm buscado reposicionar o Polo de Camaçari frente às mudanças globais na indústria. Atualmente, o complexo concentra mais de 80 empresas, gerando cerca de 50 mil empregos — sendo 10 mil diretos e 40 mil indiretos — e arrecadando mais de R$ 4 bilhões anuais em ICMS para o estado.
Retomada evidenciada
Esse momento de recuperação recebeu destaque durante a visita presidencial à Fafen-BA, onde a retomada das operações foi celebrada como um marco importante. Com um aporte de R$ 100 milhões, a fábrica já opera próxima a 90% da capacidade, produzindo diariamente 1,3 mil toneladas tanto de ureia quanto de amônia, suprindo cerca de 5% da demanda nacional por fertilizantes, essenciais ao agronegócio e à segurança alimentar.
Novos investimentos no Polo
- Em abril de 2025, foi inaugurada a fábrica da Unipar, que opera com energia elétrica 100% renovável. Sua capacidade anual inclui 20 mil toneladas de cloro, 22 mil de soda cáustica, 23 mil de ácido clorídrico e 160 toneladas de hipoclorito de sódio, abastecendo principalmente o setor de saneamento e produtos de higiene e limpeza.
- A chegada da BYD, fabricante chinesa de veículos elétricos, qualificou o Polo como um centro estratégico para a indústria de mobilidade elétrica, abrindo espaço para o desenvolvimento de cadeias produtivas ligadas a autopeças e componentes para veículos elétricos.
Perspectiva cautelosa
Apesar das notícias positivas, empresários e especialistas recomendam cautela ao interpretar o atual momento. O otimismo sobre novas oportunidades convive com preocupações relacionadas a obstáculos antigos, sem soluções definitivas.
O cenário internacional, especialmente para os setores químico e petroquímico, permanece desafiador, mas os investimentos recentes indicam a capacidade do Polo de atrair novos empreendimentos e adaptar-se às mudanças globais.
Crise da petroquímica e desafios estruturais
O setor petroquímico no Brasil enfrenta uma crise profunda, principalmente devido ao alto custo da matéria-prima. A dependência da nafta – em grande parte importada – torna o polo menos competitivo frente aos grandes players internacionais, que utilizam insumos mais baratos, como o gás natural.
Além disso, há excesso de oferta global e concorrência acirrada com produtos importados a preços reduzidos artificialmente, pressionando a indústria local. Medidas como o Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq) e o movimento da Braskem para diversificar suas fontes vêm auxiliando a resiliência do setor.
A presença da Petrobras na composição acionária da Braskem abre perspectivas para um fornecimento mais competitivo de nafta, o que pode contribuir para retomada da competitividade do Polo.
Diferença de escala e competição global
Outro desafio crítico é a disparidade de escala entre o Polo de Camaçari e os grandes complexos internacionais na China, Estados Unidos e Oriente Médio, que desde a sua construção já nasceram voltados ao mercado global. A escala produtiva se mostra fundamental para competitividade no setor petroquímico.
Essa realidade impõe a necessidade de debater estratégias nacionais que protejam e fortaleçam a indústria local, evitando sua completa abertura ao mercado internacional sem mecanismos adequados de incentivo.
Importância estratégica da Braskem
A Braskem se mantém como o principal pilar do Polo, respondendo por mais de 40% da capacidade instalada e com produção anual da ordem de 5 milhões de toneladas. Gerando cerca de 7,5 mil empregos diretos e indiretos, a empresa movimenta mais de R$ 57 bilhões no estado.
O equilíbrio e recuperação financeira da Braskem, aliados à atuação da Petrobras, são considerados essenciais para a futura consolidação do Polo como um polo industrial sustentável e competitivo.
Mobilidade elétrica e novas oportunidades
A presença da BYD representa a abertura de um novo capítulo para o Polo, expandindo as possibilidades dentro da eletromobilidade. Embora a cadeia produtiva dos veículos elétricos envolva menos fornecedores do que os carros tradicionais, a expectativa é que o investimento estimule o surgimento de novos negócios e fornecedores locais.
O aumento gradual da produção nacional e a elevação dos impostos de importação incentivam a nacionalização, ao passo que a empresa já expande seu ritmo de produção e vendas na região do Mercosul, contribuindo para o desenvolvimento de uma nova cadeia automotiva na Bahia.
Desafios persistentes
- Infraestrutura deficitária, especialmente em vias, iluminação e segurança.
- Dificuldades logísticas que afetam o transporte e o deslocamento dos trabalhadores.
- Escassez e desinteresse da mão de obra para vagas no setor industrial.
Esses gargalos são apontados frequentemente por empresas localizadas em diferentes distritos industriais do estado, comprometendo o potencial de crescimento do Polo.
Em resposta, o Comitê de Fomento Industrial de Camaçari mantém diálogo constante com o governo estadual, buscando avanços na matriz energética, inovação, formação de mão de obra, segurança pública, infraestrutura e logística.
O futuro do Polo
Mesmo diante dos desafios, o Polo Industrial de Camaçari continua sendo o maior complexo industrial integrado do Hemisfério Sul e o principal motor da economia da Bahia, ao lado da refinaria de Mataripe.
Para que se mantenha relevante e competitivo, é necessário renovar investimentos, modernizar suas instalações e fortalecer especialmente o complexo petroquímico, assegurando papel estratégico da Petrobras no processo.
Esse alinhamento será decisivo para que o Polo supere seus desafios e consolide uma nova fase de desenvolvimento industrial sustentável, capaz de sustentar a economia baiana nos próximos anos.





