O governo decidiu renovar por mais seis meses os incentivos à importação de veículos eletrificados desmontados (CKD) e semidesmontados (SKD), uma medida que gerou uma crise na indústria automotiva brasileira. Montadoras e fabricantes de autopeças alertam que essa renovação favorece principalmente uma empresa específica, colocando em risco investimentos bilionários e afetando a previsibilidade necessária para a produção nacional de modelos híbridos e elétricos.

Renovação da cota de importação

Na última terça-feira, a Câmara de Comércio Exterior (Camex), por meio do Comitê-Executivo de Gestão (Gecex), decidiu renovar a cota que permite a importação de veículos eletrificados CKD e SKD com alíquota zero. O limite fixado é de US$ 463 milhões e valerá por seis meses, a partir de 1º de julho.

Reação da indústria automotiva

As entidades representativas da indústria manifestaram forte insatisfação com a decisão. Para a associação que representa as montadoras tradicionais no país, a medida é motivo de preocupação, pois contraria os interesses dos trabalhadores, fabricantes nacionais de veículos e produtores brasileiros de autopeças. Essa associação afirma que, ao prolongar benefícios inicialmente temporários, o governo compromete a confiança das empresas que basearam seus investimentos nas regras previamente estabelecidas.

A indústria automotiva anunciou investimentos de aproximadamente R$ 140 bilhões para o Brasil até 2033. A renovação dos incentivos à importação, na visão da associação, enfraquece o estímulo à fabricação local, especialmente em um momento em que o setor começava a responder às políticas públicas vigentes.

Setor de autopeças alerta para riscos

As principais entidades do setor de autopeças também rejeitaram a decisão de aumentar cotas para importação de veículos eletrificados desmontados e semidesmontados, estimadas em US$ 463 milhões para seis meses. Para essas organizações, essa medida deveria ser substituída por um avanço na recomposição das alíquotas de importação, e a nova cota acaba anulando os efeitos da retomada gradual dos impostos.

As associações destacam que tanto montadoras quanto fornecedores planejavam investir valores expressivos, que podem ser reduzidos ou até cancelados devido à falta de clareza nas regras. O setor automobilístico nacional reúne empresas de diferentes portes e origens, emprega cerca de 1,3 milhão de trabalhadores diretamente e é uma fonte importante de arrecadação tributária para o país.

Posicionamento contrário à crítica

O discurso da empresa mais beneficiada pela medida contrasta com a insatisfação das montadoras tradicionais e dos fabricantes de autopeças. O vice-presidente sênior da empresa no Brasil afirmou que “brigar com o governo nunca é bom” e ressaltou o compromisso da companhia com o país, destacando investimentos, geração de empregos e atração de capital estrangeiro.

Nova dinâmica para a política industrial

Para as montadoras convencionais, o tema vai além de acelerar o acesso do consumidor brasileiro aos veículos eletrificados. A associação reafirma o compromisso com a descarbonização, a concorrência e a ampliação da oferta de veículos, mas alerta que a renovação da cota muda a direção da política industrial, impactando o desenvolvimento sustentável do setor.

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