Trabalho e Cotidiano na Fábrica de Veículos Eletrificados

Em Camaçari, Bahia, cerca de 350 trabalhadores locais e operários chineses se deslocam diariamente para a fábrica da BYD, líder mundial na produção de veículos eletrificados, iniciada em 2023. Desde então, mais de mil vistos de trabalho foram concedidos a chineses que atuam na instalação de equipamentos e capacitação das equipes, em meio a acusações graves relacionadas a condições análogas à escravidão.

Rotina dos Trabalhadores

  • Por volta das 6h, centenas de moradores locais formam filas na busca por emprego no Centro de Integração e Apoio ao Trabalhador.
  • Simultaneamente, ônibus transportam operários chineses de hotéis e alojamentos para a fábrica da BYD, localizada em instalações anteriormente da Ford.
  • Registros indicam mais de mil vistos para trabalhadores chineses em Camaçari e mais de 800 na vizinha Lauro de Freitas, incluindo funcionários diretos da fábrica e terceirizados.

Infraestrutura de Alojamento

A poucos minutos da fábrica, um complexo amplo está sendo construído, com 50 mil metros quadrados, cinco pavilhões, cerca de 600 dormitórios e um centro comercial exclusivo que inclui supermercado, restaurante e hotel. Essa estrutura foi projetada para abrigar trabalhadores brasileiros vindos de outras regiões.

Práticas Inspiradas na China

Modelos similares são comuns nos grandes polos industriais chineses, onde a BYD oferece alojamento gratuito para migrantes rurais. Relatórios revelam quartos superlotados e jornadas exaustivas, frequentemente com retenção de parte dos salários. Essas condições também foram identificadas em obras da empresa na Hungria, apontando para padrões repetidos em diferentes países.

Denúncias de Trabalho Análogo à Escravidão

  • Em maio de 2025, ações judiciais foram iniciadas contra empresas terceirizadas que trabalharam na construção da fábrica, apontando abusos como jornadas exaustivas, retenção de passaportes e alojamentos precários.
  • Ao todo, 224 trabalhadores chineses foram resgatados e alojados em hotéis antes do retorno à China.
  • As condições encontradas incluíam falta de colchões, comida armazenada no chão e banheiros insuficientes para o número de moradores.
  • As empreiteiras assumiram compromisso de pagamento de indenizações próximas a R$ 40 milhões, metade direcionada aos trabalhadores.
  • Relatos do sindicato local apontaram excessos na jornada de trabalho, retenção de funcionários após expediente e intervalo para almoço reduzido.

Modelo de Produção e Impacto Econômico

A unidade industrial funciona sob o sistema semi knocked down (SKD), em que componentes em blocos são importados da China e montados localmente, evitando processos como soldagem e pintura no Brasil. Esse método reduz custos e acelera a produção, porém emprega cerca de 50% a 60% menos trabalhadores do que fábricas tradicionais.

  • A fábrica de Camaçari conta atualmente com cerca de 4.900 funcionários entre brasileiros e chineses.
  • O custo anual médio por trabalhador industrial varia entre R$ 100 mil e R$ 170 mil, considerando salários e encargos.
  • Associações do setor alertam que o uso prolongado do sistema SKD pode prejudicar a indústria nacional, ameaçando milhares de empregos diretos e indiretos.

Histórico Tributário e Incentivos

  • Em 2015, foi zerada a alíquota do imposto de importação de veículos elétricos, beneficiando a entrada da BYD e outras montadoras chinesas.
  • Essa isenção foi modificada em 2024, passando a 10% e depois a 18%, impulsionando a empresa a oferecer descontos para taxistas e motoristas de aplicativo.
  • Em 2025, o imposto aumentou para 25%, fazendo com que a BYD mudasse a estratégia para montar veículos com kits SKD, em regime temporário de isenção até janeiro de 2026.
  • Após fim do benefício, houve uma nova cota de isenção de US$ 463 milhões para o mercado nacional, com críticas do setor sobre a incerteza regulatória.

Incentivos Regionais

O governo da Bahia concede benefícios fiscais que podem chegar a isenções totais no ICMS para grandes projetos automotivos. Além disso, veículos 100% elétricos até R$ 300 mil são isentos de IPVA no estado.

Preço e Nacionalização da Produção

O modelo de entrada da BYD no Brasil, Dolphin Mini, tem preço médio semelhante aos principais carros compactos nacionais, embora seja significativamente mais caro que na China, refletindo a alta carga tributária local.

  • Até 2027, a intenção é nacionalizar até 50% da produção, incluindo etapas como estamparia, soldagem e pintura.
  • Essa transição reduzirá dependência de benefícios de importação, mas abrirá acesso a incentivos destinados à fabricação nacional, como o programa IPI Verde.

Incentivos à Produção Sustentável

O programa IPI Verde ajusta impostos conforme o impacto ambiental dos veículos, com benefícios máximos para os classificados como “Carro Sustentável”, exigindo parte da produção no Brasil. Veículos elétricos já partem com vantagens nessa política.

Reflexões Finais

A chegada da BYD em Camaçari ilustra um cenário onde a produção automotiva local convive com profundas relações internacionais. Enquanto investidores e trabalhadores chineses ocupam posições estratégicas e estruturais, uma larga parte da produção e supervisão técnica permanece ligada à China. O desafio é equilibrar a expansão industrial com respeito às condições laborais e a valorização da indústria nacional em meio a um complexo ambiente tributário e econômico.

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