Um relatório técnico da Polícia Federal revelou que o Instituto de Seguridade do Servidor Municipal de Camaçari (ISSM) investiu R$ 15 milhões no Fundo de Investimento Multimercado Sculptor Crédito Privado em 21 de novembro de 2017. Na época, a administração municipal estava sob o comando do então prefeito Elinaldo Araújo. A análise sugere que o consultor Renato de Matteo Reginatto teria oferecido vantagens indevidas a dirigentes locais para garantir esse aporte. A investigação recente, realizada em 16 de setembro de 2026, cruzou documentos oficiais da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), registros do Banco Central e relatórios internos do ISSM, indicando que o investimento foi realizado quando o Sculptor já enfrentava graves problemas de liquidez. Ainda assim, a maior parte dos recursos aplicados por Camaçari foi utilizada para pagar resgates de outros regimes próprios de previdência.

Importante destacar que o documento analisado não nomeia quais dirigentes locais teriam supostamente recebido tais vantagens, não comprova o pagamento das mesmas e não atribui uma comissão específica de 20% ao município.

Camaçari investiu no Sculptor em momento crítico

Um relatório técnico da Polícia Federal, elaborado pelo Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro, data de fevereiro de 2020 e aponta que o aporte ocorreu quando já se conheciam dificuldades na carteira do fundo. Os investigadores inferiram que o consultor Renato de Matteo teria oferecido vantagens ilegais a dirigentes do ISSM em troca do investimento. Contudo, essa é uma hipótese investigativa, não uma conclusão judicial, e não indica que valores indevidos foram efetivamente transferidos, tampouco identifica os possíveis beneficiários.

Destinação dos recursos: resgates de outros institutos

De acordo com o relatório, parte significativa do aporte de R$ 15 milhões não foi aplicada em ativos, mas usada para honrar resgates solicitados por outros institutos previdenciários. Cerca de R$ 10,5 milhões foram direcionados ao Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Uberlândia e aproximadamente R$ 2,3 milhões para Hortolândia. Documentos da CVM confirmam que esses institutos possuíam pedidos de resgate que somavam quase R$ 13,61 milhões desde outubro de 2017, quando o fundo foi fechado temporariamente por falta de liquidez.

Após a reabertura para resgates em novembro de 2017, o ISSM realizou seu aporte em 21 de novembro e, poucos dias depois, em 30 de novembro, R$ 12,97 milhões foram pagos para satisfazer esses pedidos. Dos cerca de R$ 2 milhões restantes, R$ 1,5 milhão foi investido em cotas do fundo imobiliário Cam Throne FIP.

Carteira do Sculptor apresentava alta concentração em ativos ilíquidos

Em 11 de outubro de 2017, o Ceará do fundo estava fortemente concentrado em títulos de crédito privado de longo prazo, somando cerca de R$ 132,29 milhões, e em cotas de fundos de investimento em participações (FIPs), que representavam R$ 78,18 milhões.

Os ativos com maior liquidez eram limitados, com aproximadamente R$ 613 mil em Letras do Tesouro Nacional e cerca de R$ 10,82 milhões em fundos multimercado, parte desses com restrições para resgate. A gestão do fundo foi alvo de processo sancionador da CVM em decorrência de falhas na administração da liquidez, que resultou em punições aplicadas em agosto de 2024.

Comissões entre 2% e 20%, sem ligação direta com Camaçari

Outro documento da Polícia Federal, datado de abril de 2021, analisou o relacionamento do consultor Renato de Matteo com vários regimes próprios de previdência e revelou a circulação de montantes próximos a R$ 30 milhões entre janeiro e maio de 2018 para o fundo Reag Renda Imobiliária.

Esse material menciona a existência de comissões que variam entre 2% e 20% para diferentes operações, porém, não estabelece que Camaçari tenha pago ou deva pagar percentuais nessa faixa. No caso específico do aporte de R$ 15 milhões do ISSM, o documento fala apenas em “vantagens indevidas” sem detalhar valores, porcentagens, destinatários ou confirmações de pagamento.

Investimento aprovado por dirigentes do ISSM

Documentos relacionados a uma ação judicial de improbidade pública distribuída em abril de 2021 indicam que a decisão pelo aporte foi tomada pelo então diretor-superintendente do ISSM, Maurício Santos Costa, assistido pelo ex-diretor administrativo e financeiro, Márcio Jordan de Melo, e com aprovação do Comitê de Investimentos do instituto.

Ao final de 2017, o ISSM possuía aproximadamente R$ 23,77 milhões em fundos sob administração da Gradual, somando o investimento no Sculptor e outros. Importante ressaltar que a existência da ação judicial não implica condenação definitiva dos citados, nem o material permite concluir sobre o desfecho do processo.

Separação entre gestão municipal e responsabilidade individual

Apesar do aporte ocorrer durante o mandato de Elinaldo Araújo, não há evidências nos documentos consultados que demonstrem que ele tenha ordenado pessoalmente o investimento, recebido qualquer vantagem ou participado diretamente do suposto oferecimento descrito pela investigação. Esta distinção evita que responsabilidades políticas sejam confundidas com penalidades individuais.

Prefeitura de Camaçari nega negligência e aponta providências tomadas

Em outubro de 2018, a Prefeitura divulgou nota oficial afirmando que não houve negligência na gestão do investimento. A administração alegou que acompanhou o aporte e tomou medidas ao identificar os problemas.

Após a liquidação extrajudicial da Gradual, em junho de 2018, o ISSM solicitou informações à instituição, e sob nova direção, requereu em agosto o resgate total das cotas do Sculptor.

A investigação ainda busca esclarecer se os responsáveis pela decisão em 21 de novembro de 2017 estavam plenamente cientes da situação financeira do fundo e quais análises de risco foram realizadas antes da aplicação.

Banco Central liquidou administrador, não o fundo

Em maio de 2018, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Gradual CCTVM S.A., administradora fiduciária do fundo, mas não extinguiu o Sculptor em si. O fundo continuou operando sob nova gestão até ser fechado novamente em outubro de 2018 por iliquidez.

Documentos municipais de agosto de 2026 indicam que os fundos Piatã, Security e Sculptor permaneciam fechados para resgate, sem novas movimentações relevantes naquele período, quase nove anos após o aporte inicial.

Perdas e impacto no patrimônio previdenciário

Os R$ 15 milhões investidos pertenciam ao patrimônio previdenciário do ISSM, destinado a garantir benefícios de servidores municipais e aposentados. Uma auditoria judicial registrou que, em dezembro de 2019, o saldo relacionado ao Sculptor era de cerca de R$ 12,65 milhões, indicando uma desvalorização de aproximadamente R$ 2,35 milhões.

Essa informação não prova interrupção no pagamento de aposentadorias ou prejuízo definitivo, mas revela exposição do patrimônio a ativos de baixa liquidez, desvalorização e dificuldade prolongada de resgate. O impacto final depende da recuperação dos ativos, processos judiciais e demais eventos posteriores.

Contexto do Caso Master

O tema do Sculptor voltou à tona no contexto das investigações ligadas ao Caso Banco Master, atualmente sob análise do Supremo Tribunal Federal (STF). Em janeiro de 2026, foram autorizadas quebras de sigilo e bloqueio de bens de investigados ligados ao banco, totalizando R$ 5,7 bilhões.

Entretanto, o aporte do ISSM no Sculptor em 2017 não está relacionado diretamente ao Banco Master. O investimento estava vinculado ao fundo FIM Sculptor Crédito Privado, gerido pela Fornax e administrado pela Gradual, sem indícios nos documentos disponíveis de participação do Banco Master nessa operação específica.

Até setembro de 2026, não há evidências que conectem Elinaldo Araújo ou dirigentes do ISSM ao núcleo das suspeitas relacionadas ao Banco Master, sendo necessária documentação oficial para estabelecer qualquer vínculo investigativo.

Proposta de delação com alegações sobre ACM Neto e Antônio Rueda

Em outra investigação ligada ao Caso Master, Daniel Vorcaro apresentou proposta de colaboração premiada atribuindo a ACM Neto e Antônio Rueda esforços para aproximar o Banco Master de institutos previdenciários de vários estados e da Cedae, mencionando valores captados da ordem de R$ 2 bilhões e possíveis remunerações de 10%.

Essa proposta não foi homologada, estando rejeitada por ausência de informações novas e garantias para devolução dos valores. As alegações de Vorcaro, portanto, são versões de um colaborador em negociação, ainda sem reconhecimento judicial.

Ambos os citados negaram as acusações, classificando-as como infundadas e afirmando sua disposição para prestar esclarecimentos.

Contexto político e separação dos fatos

Elinaldo Araújo e ACM Neto pertencem ao mesmo campo político, o que alimenta a repercussão eleitoral das informações, mas não configura prova da participação de ACM Neto na decisão do ISSM.

O relatório da Polícia Federal menciona o consultor Matteo e dirigentes de Camaçari, mas não cita ACM Neto diretamente na operação de 2017. Já as alegações de Vorcaro envolvem outros institutos e o Banco Master, criando dois núcleos factuais que não podem ser unidos sem novas evidências.

Dúvidas ainda pendentes

Os documentos confirmam o aporte e sua data, as dificuldades do fundo e o uso significativo dos recursos para resgates de outros cotistas, assim como a existência da hipótese de vantagens indevidas. Contudo, permanecem sem respostas claras questões fundamentais:

  • Quem teria recebido ou aceitado essas vantagens em Camaçari;
  • Se algum pagamento chegou a ocorrer;
  • Qual teria sido o valor de eventuais vantagens;
  • Quais documentos fundamentaram a decisão do aporte;
  • Qual o saldo econômico recuperável atualmente pelo ISSM.

Também é necessário acompanhar o andamento da ação judicial iniciada em 2021 e a possível incorporação desses documentos históricos nas investigações atuais do Caso Master. A circulação do relatório não substitui ato formal que determine sua validade probatória em cada processo.

Por fim, a referência a comissões de até 20% aparece em material da Polícia Federal sobre diversas operações, mas não pode ser vinculada especificamente ao aporte de Camaçari sem extrapolar as provas disponíveis.

Linha do tempo dos acontecimentos principais

  • 30/10 e 04/11/2013: Institutos previdenciários de Uberlândia e Hortolândia solicitam resgates no Sculptor, totalizando cerca de R$ 13,61 milhões.
  • 11/10/2017: Administradora Gradual determina fechamento do Sculptor por falta de liquidez.
  • 01/11/2017: Assembleias de cotistas aprovam reabertura para resgates.
  • 21/11/2017: ISSM de Camaçari realiza aporte de R$ 15 milhões no fundo Sculptor.
  • 30/11/2017: Cerca de R$ 12,97 milhões são usados para pagamento de resgates; R$ 1,5 milhão investido em fundo imobiliário.
  • 22/05/2018: Banco Central decreta liquidação extrajudicial da Gradual.
  • 08/08/2018: ISSM solicita resgate total das cotas do Sculptor sob nova direção.
  • 04/10/2018: Novo fechamento do fundo informado devido à iliquidez.
  • 31/10/2018: Prefeitura nega negligência e relata medidas adotadas.
  • 12/12/2019: Auditoria registra saldo de R$ 12,65 milhões referente ao aporte original.
  • 06/02/2020: Polícia Federal assina relatório com hipótese de vantagem indevida.
  • 07/04/2021: Documento da PF menciona comissões variando entre 2% e 20% em operações diversas.
  • 27/04/2021: Ação judicial envolvendo investimento e dirigentes do ISSM é distribuída à 1ª Vara da Fazenda Pública de Camaçari.
  • 06/08/2024: CVM condena responsáveis pela gestão do fundo por falhas relacionadas à liquidez.
  • 16/01/2026: STF autoriza bloqueios e quebras de sigilo no âmbito do Caso Master.
  • 26/08/2026: Fundo Sculptor permanece fechado para resgate conforme documentos oficiais.
  • 10/09/2026: Tornam-se públicas alegações de colaboração premiada envolvendo ACM Neto e Antônio Rueda; ambos negam irregularidades.
  • 16/09/2026: Análise destaca separação entre fatos comprovados do aporte e alegações ainda não confirmadas.

Em síntese, os documentos mais consistentes indicam que o Sculptor já enfrentava problemas sérios de liquidez antes do investimento do ISSM em novembro de 2017; que dos R$ 15 milhões aportados, quase R$ 13 milhões serviram para honrar resgates pendentes; e que a gestão do fundo foi responsabilizada por falhas nesta mesma época. Em paralelo, a Polícia Federal levantou suspeitas sobre oferta de vantagens indevidas, mas não confirmou pagamentos, seus valores ou beneficiários.

É fundamental ainda manter a distinção entre o caso do Sculptor e as investigações recentes relacionadas ao Banco Master, principalmente diante do contexto político em que o ex-prefeito Elinaldo Araújo e ACM Neto possuem alinhamento partidário, mas sem comprovação documental que ligue diretamente o ex-prefeito às decisões do ISSM.

O tema tem forte relevância pública por envolver recursos previdenciários de servidores municipais aplicados em um fundo de difícil liquidez e com problemas financeiros que se estendem por quase uma década. Os próximos passos são esclarecer o destino efetivo desses recursos, apurar a existência de pagamentos ilícitos e acompanhar o andamento judicial que pode impactar as investigações atuais.

Documento da PF aponta suspeita de vantagens indevidas relacionadas ao aporte de R$ 15 milhões feito pelo ISSM de Camaçari no fundo Sculptor em 2017. A CVM confirma que R$ 12,97 milhões financiaram resgates de outros institutos e posteriormente puniu responsáveis por falhas de liquidez. Não há, no material analisado, prova de pagamento de propina, percentual específico para Camaçari ou participação pessoal de Elinaldo Araújo ou ACM Neto na operação.
Relatório técnico indica suspeitas sobre aporte de R$ 15 milhões do ISSM no Sculptor; CVM confirma problemas de liquidez no fundo.

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