Você sabia que o nome original da cidade era Camassary, um termo que vem do tupi-guarani? Esse resgate histórico traz à tona uma reflexão importante sobre nossa humanidade e sobre a presença do povo Tupinambá no distrito de Vila de Abrantes. Essa comunidade, marcada pela resistência, mantém viva sua cultura guerreira, identidade e ancestralidade apesar das adversidades.
Thiago Tupinambá, uma jovem liderança do povo Tupinambá em Abrantes, nasceu e cresceu nesse território onde a ancestralidade está sempre presente. Ele aprendeu desde cedo com as mulheres fortes de sua família, especialmente sua mãe, a Cacica Renata, que a sensibilidade anda lado a lado com a luta.
Ainda jovem, Thiago sentiu o chamado para representar sua comunidade. Hoje, ocupa um papel de destaque, mas reconhece que conquistou esse espaço aos poucos, guiado pelos mais velhos e pelo momento em que seu povo precisava de uma voz para resistir. Seu objetivo nunca foi apenas proteger a cultura dentro da aldeia, mas conquistar reconhecimento e respeito em toda a região.
Além de líder, Thiago estuda artes visuais na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele usa o conhecimento acadêmico para amplificar as vozes indígenas, provando que a identidade do seu povo está mais viva do que nunca, ocupando espaços de conhecimento e poder.
Grafismo, ritual e identidade
Para Thiago, o grafismo não se resume a desenhos decorativos. Ele é uma extensão da alma Tupinambá, um ritual de respeito e proteção. Desde a coleta do jenipapo até a pintura na pele, esse ato espiritual fortalece a conexão com os mais velhos e conserva a memória oral ancestral.
Ao transportar esses saberes para o grafite urbano, Thiago transforma a arte em uma forma de resistência e demarcação. Cada linha traçada em muros ou pilares serve para registrar a presença indígena, lembrando que essa cultura, às vezes invisibilizada, segue viva e pulsante no presente.
Trabalho realizado no Museu do Recôncavo da Bahia por Thiago Tupinambá.
“Eu uso o grafismo sempre, para mostrar e demarcar aquele espaço onde uma pessoa indígena pintou. Isso é para proteger o local e revelar a cultura indígena.”
Resistência e futuro conectado
Thiago acredita que a resistência é um esforço coletivo. A tecnologia é uma grande aliada nesse enfrentamento. Durante a pandemia, por exemplo, a juventude indígena usou celulares e redes sociais para denunciar invasões e defender seus territórios. Para ele, estar conectado não significa abrir mão da identidade; pelo contrário, o indígena contemporâneo ocupa espaços acadêmicos e políticos sem perder suas raízes.
Seu maior sonho é integrar as escolas de Camaçari à comunidade Tupinambá por meio de uma educação antirracista. Ele quer que as novas gerações compreendam que a história da cidade não começou em 1500, mas é construída diariamente em Vila de Abrantes. Com sua arte e voz, Thiago reforça que respeitar os povos originários é respeitar a identidade real de Camaçari.
Para ele, não é necessário estar “na mata fechada” para ser indígena. O mais importante é ter o território protegido, os direitos assegurados e o orgulho de carregar o grafismo que simboliza a vida e a história de um povo que jamais deixou de existir.





